Astrônomos amadores de MG descobrem mais dois novos cometas brasileiros

Por Marcelo Zurita*

––– CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE –––

Era início da noite de 13 de abril. De Belo Horizonte (MG), o astrônomo amador Cristóvão Jacques aciona remotamente a abertura da cobertura do Observatório Sonear, em Oliveira (MG). Com o telescópio apontado na direção da Constelação de Órion, Jacques iniciou a noite em busca por asteroides próximos à Terra, algo que o Sonear faz sistematicamente desde 2014, quando foi fundado. Mas aquela noite, aquela primeira sequência de fotos do céu seria especial. Elas traziam as primeiras imagens do mais novo cometa brasileiro, o P/2020 G1 (Pimentel).

Reprodução

Primeiras imagens do Cometa P/2020 G1. Créditos: Sonear

Para descobrir um asteroide, o observatório faz uma sequência de três fotos da mesma região do céu, dando um certo tempo entre uma foto e outra. Caso exista nessas imagens algum objeto se movendo em relação ao fundo de estrelas, é feita uma consulta a uma base de dados de asteroides para ver se não se trata de nenhum objeto conhecido. Caso não seja identificado cometa ou asteroide conhecido naquela posição, o objeto é reportado para o Minor Planet Center como um novo asteroide descoberto. O Minor Planet Center é um organização ligada a IAU (União Astronômica Internacional) responsável por coletar e manter dados observacionais de cometas e asteroides.

E quando analisava as imagens captadas naquela noite, Eduardo Pimentel, também astrônomo amador do Sonear, percebeu que aquele objeto se tratava de um cometa. Esse corpo celeste se diferencia visualmente dos asteroides por possuir uma coma e uma cauda, ambas formadas pelos gases emitidos pelo cometa quando se aproxima do sistema solar interior. E nas imagens analisadas por Pimentel, notou-se a presença de uma pequena coma e uma tênue cauda. Logo, o astrônomo reportou a descoberta com características cometárias ao MPC.

Quatro dias depois, diversos observatórios ao redor do mundo já haviam reportado a observação do novo objeto. Foi então que a Minor Planet Center divulgou a circular “MPEC 2020-H06”,  oficializando a descoberta do cometa, agora nomeado de P/2020 G1 (Pimentel).

Reprodução

No centro da imagem, o Cometa P/2020 G1 (Pimentel) e sua pequena coma e cauda. Créditos: Ernesto Guido e Adriano Valvasori

Confira abaixo o vídeo de divulgação da descoberta apresentado por Cristóvão Jacques, do Sonear e do Canal AstroNeos. 

 

O Cometa

Um cometa é um tipo de corpo celeste formado basicamente de rocha, gelo e gases congelados, e que normalmente se origina de áreas mais afastadas do sistema solar, mas que se aproximam do Sol ao menos uma vez. Ao fazê-lo, parte do gelo e dos gases que o constituem sublimam e formam uma atmosfera difusa chamada de “coma”, que brilha devido ao efeito de ionização. Em alguns casos, os ventos solares arrastam esses gases formando uma cauda ionizada, a qual pode se estender por milhões de quilômetros no espaço.

Reprodução

Cometa C/2012 S1 (ISON). Créditos: Adam Block

No caso do P/2020 G1 (Pimentel), trata-se de um cometa de curto período que leva cerca de sete anos para completar uma vota em torno do Sol. Ele também foi classificado como JFC, ou Cometa da Família de Júpiter, cujos cometas são de curto período (período orbital menor que 20 anos) e de baixa inclinação, passando por uma região do sistema solar onde há forte influência gravitacional do planeta gigante. Além disso, em seu momento de maior aproximação do Sol, o cometa cruza a órbita da Terra, e por isso, é classificado também como NEO (Objeto Próximo à Terra) ou NEC (Cometa Próximo à Terra).

Reprodução

Órbita do Cometa P/2020 G1 (Pimentel). Fonte: JPL/Nasa

Sim, ele é um cometa que passa próximo à Terra, mas não se ‘animem’ pensando que o fim está próximo! A maior aproximação possível com o nosso planeta será pelo menos a 40 milhões de quilômetros. Os dados da órbita ainda estão sendo refinados, mas já sabemos que ele não oferece risco nenhum à Terra.

Nomenclatura

Existe uma regra no MPC para nomeação de cometas que leva em conta o tipo de órbita do cometa, a data de seu descobrimento e o nome do descobridor.

1 – Os cometas chamados “periódicos”, ou seja, que levam menos de 200 anos para completar uma volta em torno do Sol, devem ter seu nome iniciado por “P/”, os demais cometas, iniciam por “C/”.
2 – O prefixo deve ser seguido pelo ano da descoberta, com quatro dígitos, e uma letra representando a quinzena do ano em que o cometa foi descoberto. “A” para o período entre 1 e 15 de janeiro, “B” para o período entre 16 e 31 de janeiro, e assim por diante.
3 – Essa letra deve ser seguida por um número, que representa a contagem de cometas descobertos nessa quinzena. São utilizadas as letras de “A” a “Y”, excluindo-se a letra “I” para evitar confusões com o numeral “1”. Assim, após a letra “H” para representar a segunda quinzena de abril, é usada a letra “J” para representar a primeira quinzena de maio.
4 – Por último, o “sobrenome” do cometa deve ser o mesmo sobrenome do seu descobridor.

Reprodução

De acordo com essas regras, o nome “P/2020 G1 (Pimentel)” indica que é um cometa periódico descoberto por Pimentel, sendo o primeiro cometa descoberto na primeira quinzena de abril (letra G). No caso, Pimentel é considerado o descobridor do cometa porque, mesmo não sendo o primeiro a observar o objeto, foi o primeiro a perceber que se tratava de um cometa.

Descobertas do Sonear e a importância do seu trabalho

O Cometa P/2020 G1 (Pimentel) é o oitavo cometa descoberto pela equipe do Observatório Sonear e o segundo periódico. O primeiro deles foi o C/2014 A4 (Sonear) descoberto em janeiro de 2014. E, em agosto do ano seguinte, Pimentel descobriu o primeiro cometa periódico do observatório, o P/2015 Q2 (Pimentel), o qual possui um período orbital de 19 anos.

Reprodução

Alguns cometas descobertos pelo Sonear. Créditos: Sonear

O Sonear também já descobriu 63 asteroides, sendo 32 próximos à Terra e, dentre eles, oito são considerados potencialmente perigosos: significa que são asteroides que passam perigosamente próximos ao nosso planeta e que, um dia, podem atingir a Terra caso haja algum desvio em sua órbita. Esses objetos são sistematicamente monitorados por observatórios em todo mundo, para que possamos saber, com a maior antecedência possível, caso algum deles sofra algum desvio que o coloque em rota de colisão com nosso planeta.

Reprodução

Observatório Sonear. Créditos: Sonear

Sonear é uma sigla para “Southern Observatory for Near Earth Asteroids Research” (“Observatório Austral para Pesquisa de Asteroides Próximos à Terra”). O nome já deixa claro o principal objetivo do observatório, mas é importante lembrar sempre que ele está inserido em um esforço global para identificar e rastrear os asteroides que rondam a nossa vizinhança.

Sempre que vemos notícias relacionadas a asteroides que passarão próximos à Terra, achamos que esse monitoramento é um trabalho da Nasa (Agência Espacial Norte Americana). Há também aqueles que acreditam na existência de um asteroide gigante mantido em segredo pela agência americana, e o qual vai se chocar com a Terra em breve. Mas o fato é que, mesmo tendo grande participação nessa pesquisa, a Nasa não é a única no mundo a trabalhar nisso.

Em vários países, diversos observatórios monitoram o céu sistematicamente em busca desses objetos que podem trazer algum risco à Terra. E desde 2014, o Sonear também participa desse esforço, mas com um grande diferencial em relação aos maiores observatórios do mundo: ele está no Hemisfério Sul do planeta.

Por ser um observatório austral (localizado no hemisfério sul), o Sonear tem acesso a regiões do céu que os grandes observatórios da América do Norte, Europa e Ásia não têm. Isso permite que os brasileiros possam cobrir essas regiões, que então não eram exploradas, o que contribui de forma significativa com esse esforço global, descobrindo asteroides que antes passariam desapercebidos.

Tecnologia nacional, reconhecimento internacional

O Observatório Sonear é um motivo de orgulho para o Brasil, e não apenas pelos resultados apresentados desde que foi inaugurado. Para torná-lo real, os recursos partiram dos próprios colaboradores, além desses utilizarem tecnologias nacionais para auxiliá-los no trabalho de descoberta.

Desde que João Ribeiro Barros, Eduardo Pimentel e Cristóvão Jacques iniciaram a construção do observatório em 2013, cada tijolo, cada saco de cimento e cada equipamento instalado, foram comprados com recursos dos próprios astrônomos. Mas além disso, uma boa parte dos equipamentos e softwares utilizados pelo Sonear são tecnologias 100% nacional. A começar pelo telescópio principal, cujo espelho foi confeccionado sob medida pelo fabricante amador de telescópios Sandro Coletti, do Paraná, e o tubo óptico por Marcelo Moura, de Minas Gerais.

Reprodução

Telescópio principal do Observatório Sonear. Créditos: Sonear

Nos bastidores, processando as imagens captadas pelos telescópios, está o SkySift, um software desenvolvido pelo também astrônomo amador Paulo Holvorcem, de Campinas (SP). O software criado por Holvorcem já foi utilizado em inúmeras descobertas astronômicas, entre elas, todas as do Sonear.

Graças a essa união de investimentos privados, tecnologias nacionais e os esforços dos astrônomos amadores brasileiros, o observatório e seus associados, já receberam diversas premiações mundo afora em reconhecimento às suas contribuições com a ciência.

Reprodução

Cristóvão Jacques, Eduardo Pimentel e João Ribeiro, no observatório Sonear. Créditos: Douglas Magno/VEJA.com

Além disso, o Sonear vem se mantendo, desde 2014, como o mais importante observatório amador no mundo na descoberta de asteroides próximos à Terra. Mesmo sem nenhum centavo de investimento público, a produtividade do observatório só não é superior aos grandes observatórios profissionais existentes no Hemisfério Norte. E, no ano de 2019, só os superou por estar com uma de suas duas câmeras em manutenção.

Nesse mesmo ano, o Observatório Campos dos Amarais, também brasileiro, operado pelo Leonardo Amaral, foi o observatório amador que mais descobriu asteroides no mundo.

A descoberta pelo Sonear do seu oitavo cometa, o P/2020 G1 (Pimentel) só mostra o quanto nós brasileiros devemos valorizar a dedicação e o esforço realizado por Ribeiro, Jacques e Pimentel, verdadeiros representantes da contribuição dos astrônomos amadores brasileiros para a ciência do Brasil e do mundo. Esperamos que o trio e os novos astrônomos amadores que, assim como o Leonardo Amaral, comecem suas contribuições nessa pesquisa, e possam encontrar cada vez mais incentivos e motivações para que continuem, de forma voluntária, a proteger nosso planeta.

 

Atualização: após o fechamento deste artigo, e antes de sua publicação, o P/2020 G1 (Pimentel) deixou de ser o último cometa descoberto por brasileiros. Na noite de 4 de maio, o Minor Planet Center, pela circular MPEC 2020-J37 anunciou o Cometa C/2020 J1 (Sonear), descoberto em 1° de maio, também pelo Observatório Sonear. Dados preliminares indicam uma órbita retrógrada e hiperbólica, com periélio em 3,2 UA (1 UA = distância entre a Terra e o Sol). Esse tipo de órbita indica que o corpo orbita o Sol em sentido contrário aos planetas, e por ser hiperbólica, após sua aproximação do Sol, o cometa será lançado para fora do Sistema Solar.

Reprodução

Órbita do Cometa C/2020 J1 (Sonear) – Fonte: JPL/Nasa

 

Marcelo Zurita é presidente da Associação Paraibana de Astronomia, membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira e diretor técnico da Bramon – Rede Brasileira de Observação de Meteoros

Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp